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FAZES-ME FALTA | Romance | Inês Pedrosa

 

Fazes-me FaltaFazes-me Falta – Romance. Edição italiana: Senza di Te. Edição alemã: Du Fehlst Mir. Edição espanhola: Te Echo de Menos.
de Inês Pedrosa
Edição portuguesa: 226 páginas, Dom Quixote. Edição Brasileira: 224 páginas, Alfaguar.a
Edição Italiana: 255 páginas, Elliot/Scatti. Edição Alemã: 260 páginas, Luchterhand Literaturvlg. Edição Espanhola: 245 páginas, Elipsis Ediciones

 


Um romance a duas vozes – um homem, uma mulher – sobre o modo como as suas vidas se cruzam e descruzam, até que a morte, inesperadamente, arrancou a mulher, ainda jovem, aos seus projectos políticos e pessoais. A carreira política da mulher afastara-a desse homem, um ex-militar da guerra colonial, bastante mais velho, que começara por ser seu aluno e depois se transformara no seu mais íntimo amigo. O livro indaga incessantemente de que matéria se faz esse exercício de compromisso a que chamamos amizade. A mulher fala já do lado de lá da vida, num lugar intermédio onde tudo observa e em nada pode interferir. Ela recorda o que viveu com ele, ele recorda o que viveu com ela – e essas memórias, factualmente idênticas, narram duas histórias diferentes: cada um deles tem a sua versão dos mesmos acontecimentos, e essas versões nunca coincidem. Este é um romance sobre o poder dos pequenos equívocos e a solidão irredimível da experiência individual. É também um romance sobre um erotismo que extravasa o amor, e sobre Deus ou a sua ausência - esse Deus em que a mulher acredita e que, para o homem, é apenas um personagem de ficção. Une-os, todavia, a fé nesse encontro definitivo entre dois seres – na concordância como na discórdia, na presença como na ausência, no corpo como na alma, mesmo quando a morte os separa. Uma fé no possível que se afirma ainda quando o impossível foi declarado. A voz feminina continua a falar, do lado da morte, como se essa mudança fosse apenas um pormenor: "talvez não haja idades. Só mortos ressoando pelos canais do Tempo, mortos que, como ímans, aproximam e afastam os que ainda não morreram. Tu trazias tantos mortos na sombra do teu sorriso." E por isso a voz masculina dirá que "Deus é uma conspiração de mortos contra a amnésia dos vivos."

Sobre este romance, escreveu o ensaísta Eduardo Prado Coelho no jornal Público: «O imenso mérito deste terceiro romance de Inês Pedrosa - que é sem dúvida o seu melhor livro, e desde já um dos romances mais importantes e apaixonantes publicados este ano - reside no facto de a Inês ter sabido construir sem a menor transigência um mecanismo narrativo extremamente original, e ter sabido dar-lhe o desenvolvimento adequado, quer na construção das figuras que o povoam (algumas personagens menores em torno do entre-dois dos narradores), quer na forma como desfia cenas de grande nitidez e visualidade. Mas esta experiência literária não é apenas um trabalho de laboratório. O que Inês escreve é algo que procura forçar os muros da realidade, procura derrubar as convenções e as gramáticas, procura ser político no sentido mais radical do termo, na medida em que pretende fazer existir aquilo que começa por existir apenas nas palavras em que essa pretensão se formula.

(…) Mas estes "corpos cintilantes da vida potencial" convivem com o que há de mais activo e concreto na concreta realidade portuguesa. Ele vem de um guerra em África e de alguma corrosão de ideais. Ela parte de uma ânsia desmedida de mudar o mundo e reequilibrar a relação entre homens e mulheres. Ele atravessa casamentos e histórias sentimentais sem muito lastro nem melodia. Ela percorre as múltiplas figuras da paixão para se centrar naquela que talvez menos a mereça: "Saiu e deixou-me na cama, o homem que Deus mandou para me matar." Cada um tropeça em ambiciosos, linfáticos, oportunistas, manipuladores e "analfabetos sentimentais." Cada um experimenta as decepções do "amor amarrotado." Ela lança-se nas formas mais impiedosas e burocráticas da actividade partidária e do envolvimento político até perceber até que ponto se desfigura e amarfanha. Procura então entender as razões do Mal, onde nasce e prospera a violência, que impede os seres de se ajoelharem em compaixão recíproca, onde habita o crime e os homens se despedaçam numa carnificina sem nome: obceca-a o sofrimento das mulheres, a desatenção dos homens, as crianças desamparadas, a dor uivada até ao sangue e à violação. Em páginas admiráveis (mas todo o livro é prodigiosamente escrito) a Inês fala da morte lentíssima das crianças e do sofrimento inominável - essa violência abjecta que leva um ser humano, não a querer morrer, mas a "não querer viver": "nem a rapariga que nesse instante pára o automóvel sobre a ponte 25 de Abril e se atira para o cimento negro do rio quer morrer - quer apenas parar de viver, o que não é a mesma coisa." Daí que as duas personagens sejam seres empenhados, desesperados, mordazes e ferozes, coloridos e eloquentes, ele envelhecido e sempre em busca do "dia invelhecível," ela, solar e luminosa, cheirando a "rosas, canela e sexo." E todos as restantes personagens são figuras expansivas e sintomáticas da sociedade portuguesa contemporânea.»

Ainda sobre Fazes-Falta:

Fazes-me Falta – "Um romance brutal", por Francisco José Viegas, Grande Reportagem.

Fazes-me Falta – "A cintilação da mortalidade", por Agustina Bessa-Luís, Jornal de Letras.

 
 
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