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Nas Tuas Mãos | Crítica | Ler | Fernando Venâncio

 

Dentro de Ti Ver O MarNas Tuas Mãos - Romance. Edição alemã: In Deinen Händen. Edição espanhola: En Tus Manos
de Inês Pedrosa
Edição portuguesa: 227 páginas, Dom Quixote
Edição brasileira: 208 páginas, Alfaguara
Edição alemã: 318 páginas, Luchterhand
Edição espanhola: Destino

 

Endiabrada Sabedoria

"Para compreender um romancista", escrevia Inês Pedrosa, em Fevereiro de 1992, no Expresso, "é preciso esquecer-lhe as histórias, amalgamar nomes e factos até que só fique o sumo. Muitas vezes esta operação redunda em sede e raiva: perdemos tempo a espremer um fruto seco." Semanas depois, surgia o seu primeiro romance. Os críticos tiveram, se foram simpáticos, alguma raiva e alguma sede, mas certo é não o terem dito. A Instrução dos Amantes só a bem poucos conseguiria convencer. Houve nisso certa injustiça, houve pelo menos desatenção. Inês achava-se em aprendizado, mas a mestra só para os desatentos era Odette de Saint-Maurice. Com bem maior clareza se ouviam aprendidas outras lições: a da toada enredante de Agustina, a do sapiente enlevo de Hélia Correia, a da impertinência gozona de Regina Louro. Não eram estes, por Juno, os piores mestres.

Mas ainda esta não era a verdade toda. Havia uma outra Inês Pedrosa, aquela que, pelos jornais, deixava, numa linguagem fluente e inventiva, pequenas histórias de observação, episódios de um quotidiano vibrante, sugestivo, rasando não raro a irrealidade, tentando visivelmente amestrá-la. Nos anos em que andou pelo O Independente, ela emprestou-lhe, nessa fase heróica do semanário, um vigor "literário" que prestigiava as outras, notórias, virtudes expressivas da casa. Era a romancista que ia nascendo.

Cinco anos após aquele primeiro romance, caladas com êxito as sonoridades alheias, um novo livro de Inês Pedrosa traz, a toda a largura, essa voz, que já se percebia ser a dela. Importaria, para adequadamente falar de Nas Tuas Mãos, "esquecer" as histórias, "amalgamar" os nomes e os factos? Não seria o mais conveniente. O prometido "sumo está, vendo bem, neles precisamente.

Primeira descoberta, primeira surpresa, ocorridas antes ainda de a leitura iniciar-se: vamos ler, não apenas um, mas três livros, encetaremos por um "diário", derivaremos para um "álbum" (poético? de testemunhos de amigos?), desembocaremos num conjunto de "cartas". Três intervenientes se nos anunciam: certa Jenny, certa Camila, certa Natália. Algo perplexos, com a desconfiança e a curiosidade na ponta da cadeira, lança-mo-nos ao livro. Ainda não o sabemos, mas vai, muito rapidamente, ser difícil arrancar-se-nos daí. Não andava previsto escrever alguém entre nós uma história assim.

O cerne da narrativa, formula-o Jenny, logo em inícios do diário que redige no final de uma vida longa, extenso diálogo com o falecido António, seu marido aos olhos do mundo. Aos olhos do mundo, porque a quem António amava, com quem ele e Jenny todos esses anos viveram, era Pedro. A vida da mulher é um drama — porque também ela amou o mesmo António —, mas, altiva, ela afincou-se em desdramatizá-lo. "Preciso de te dizer que existiu mais do que pura paixão e livre entendimento na minha decisão de permanecer contigo para sempre. Houve também altivez, querido António." E será ela quem, mais atenta do quê os dois amantes, lhes conhecerá a relaçâo. Ela, e não António, observará as escapadelas de Pedro. "Só através de muitas dezenas de infidelidades insignificantes o Pedro conseguiu permanecer fielmente ao teu lado, a vida inteira." De uma dessas infidelidades, nascerá Camila.

Muito mais tarde, Natália — a filha que Camila terá de um guerrilheiro moçambicano, logo depois assassinado — há-de ler os diários da "avó" Jenny e conhecerá, sem sobressalto, os factos: o amor sem ilusão de Jenny pelo "avô" António, o amor de uma vida inteira entre ele e o "avô" Pedro. Bem diferentemente haverá Camila de reagir. Sempre crera numa paixão romântica entre António e Jenny. A revelação das exactas relações, a "indecência" delas chocam-na. "Como é que o meu pai pode ter sido tão cruel?", repete, desnorteada. É isso o sabemos por Natália, em "cartas" que dirigiu a Jenny, mesmo depois da morte da idosa senhora.

Das três mulheres, é Jenny (o pai adorava a "Jennifer" de Júlio Dinis) aquela de quem mais penetramos a interioridade. Não admira: é ela, das três, quem mais fala de si mesma. De Camila, a fotógrafa, e de Natália, a arquitecta, saberemos o que uma da outra nos relatam e quanto se nos vai permitindo adivinhar.

Jenny, confidencia ela mesma, prezara, em nova, o cepticismo. Julgava-o, então, um sinal de inteligência. Aprenderá um dia a brandura. "Já não tenho vergonha de ser meiga", escreverá a António, "foi uma das coisas que me levaste quando morreste." Camila — que nascera de Pedro e de uma refugiada judia, pouco depois vítima do extermínio nazi — só conhecerá o desassossego. "Não tenho fé nem alegria nem confiança em nada do mundo", confiará no seu álbum, onde comenta dez fotografias que lhe resumem a existência. Nelas se projecta. Nelas, diz, "sinto o meu coração em sangue e saboreio o desmantelado gosto da vida".

Para a juvenil Natália, a velha Jenny será um arrimo perene. No "estado mitológico puro" em que diz viver — com a "fé" e o "desespero" como alternativas únicas —, pede-lhe a "fórmula mágica" para "acreditar que as pessoas são aquilo que, no fundo, no fundo, nós sabemos que elas não são." E, se o sabemos, é "porque, pára nossa desgraça, para além de bons corações somos seres mui inteligentes." Natália, a única destas mulheres quê tem um homem, virá a desfazer-se dele. Sem alegria, de resto, antes melancolicamente. "Encontrarno-nos agora juntos na violência do sofrimento, na ausência um do outro como já não nos lembrávamos de ter estado em presença. É uma forma de amor inviável, que, por isso mesmo, não tem fim."

O paradoxo é um dos domínios queridos de Inês Pedrosa. A expressão enche-se-lhe frequentemente (já acontecia em A Instrução dos Amantes) de endiabrada sabedoria. Uma sucinta recolha: "As pessoas passam metade da vida a maltratar-se umas às outras, por medo e necessidade de afirmação." "As pessoas são mais imprevisíveis para o bem do que para o mal." "O esplendor de Portugal fez-se da teimosia de dobrar o mundo ate o fazer coincidir com os sonhos." Esta última sentença é atribuída por Jenny a António, com quem ela mantinha "duelos aforísticos", que enterneciam Pedro de ciúmes. António, escreve ela, tornava-a "instantemente lapidar". Tocante piscar de olho da romancista. Outros encontraremos. Como quando refere a "mais ou menos marginal" editora, a Penélope: "Enfim, tão marginal quanto é possível a um projecto bem sucedido." Ou como quando se a vê louvar certa escritora a quem "nunca ocorreu escrever o romance autobiográfico por onde toda a gente se estreia". E fica particularmente bem à última directora de Marie Claire fazer recordar isto a Natália, descontente do visual que lhe calhou: que, "se levantasse os olhos das revistas que folheia com fúria, descobriria nos olhos dos homens a insubstituível beleza do seu corpo redondo e da sua pele cor de canela".

As observações que a autora atribui aos jovens adultos dos anos sessenta (ela própria nasceu em 1962) têm todo o aspecto de adequadas. Sirvam de exemplo as considerações que Camila faz, a pretexto da quinta "foto" do seu álbum, sobre a liberdade sexual das raparigas então. Outras anotações são de igual autenticidade, como esta, já na última das fotos: "Nunca dizíamos que não gostávamos de um filme, um livro, uma tela ou uma pessoa; tratávamos sempre de os explicar." Ou esta: "As declarações de amor eram substituídas por verificações de facto: "Sinto-me muito bem ao pé de ti", "Fazemos uma boa equipa". Essa exactidão convida a supor uma base real para algumas "histórias" inseridas ao longo da narração. Podia ser o caso do aventureiro contabilista que na quinta "carta" de Natália, vemos conquistar um lugar, ao fazer saber à firma-alvo que fora posto na rua por "suspeita de espionagem" a favor deles. Terá Inês Pedrosa ouvido uma história assim? Terá ela sabido, também de certa fotografia que apanha Salazar em lágrimas no 10 de Junho de 1966, e não foi publicada porque a fotógrafa (e é uma das frases mais bonitas do livro) se recusou a "esconder com as lágrimas dele as lágrimas que já não podem chorar os rapazes que ele mandou morrer"? E que figuras públicas se encapotam sob o nome de Delfim Veleno, intriguista e escritor? António Ferro, em parte, talvez. Mas quem mais?

Contra todo o ímpeto que Jenny irradiava, este melancólico livro acaba numa confissão de desistência. Para que se fez a revolução, para que fizemos nós uma revolução? "A felicidade terrena continua a espelhar-se nas caras dos mesmos ricos de antigamente", anota Camila. E a filha observará: "A verdade é que o dinheiro foi dominando tudo: sem ele, não se arranja um espaço para viver, nem os livros, filmes e viagens de que necessitamos para mudar o mundo. A revolução, hoje, é essa. É triste, mas não há outra."

Não se vê como esta história pudesse acabar bem. E não poderia. Mas, por artes mágicas, acaba. E de um arbitrário gritante. Mas, bons céus, talvez já bastasse de sofrer.

Fernando Venâncio in Revista Ler, 1997

 

 
 
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