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Nas Tuas Mãos | Crítica | Lídia Jorge | Jornal de Letras

 

Dentro de Ti Ver O MarNas Tuas Mãos - Romance. Edição alemã: In Deinen Händen. Edição espanhola: En Tus Manos
de Inês Pedrosa
Edição portuguesa: 227 páginas, Dom Quixote
Edição brasileira: 208 páginas, Alfaguara
Edição alemã: 318 páginas, Luchterhand
Edição espanhola: Destino

 

Uma Educação Sentimental

Em 1992, Inês Pedrosa publicou o seu primeiro romance, A Instrução dos Amantes. Para muitos de nós, habituados a lê-la noutros registos, esse livro constituiu uma agradável surpresa. Aliás, não lhe faltou bom acolhimento por parte dos colegas nem dos seus leitores. A frescura das histórias aí publicadas, e a revelação de algumas realidades opacas a outros olhares, transformou esse livro, durante uma estação, numa espécie de pequeno fétiche. A agressividade da capa, um coração hiper-realista, com maiúsculas vermelhas e vasos expostos, produzia o resto.

Entretanto passaram cinco anos, a Inês andou por regiões bastante salientes, e agora tudo concorre para que se encontre numa posição bem mais expectante, principalmente porque se trata de um segundo livro, aquele sobre o qual os curiosos mais procuram ver a deriva do talento do que o valor da obra em si mesma. Mas, neste caso, quem apreciou A Instrução dos Amantes não terá matéria para ficar defraudado.

Em vários aspectos, Nas Tuas Mãos é o desenvolvimento do romance de estreia, e quem achou interesse nas histórias juvenis de Inês Pedrosa, onde as raparigas já seguravam a rédea da acção, não ficará surpreendido ao entrar de novo no reino das mulheres, agora com outra idade e outros dilemas. Tão pouco se vier a reconhecer que ambos os livros se submetem a um projecto que se inscreve no que poderemos designar por uma espécie de Educação Sentimental, não tão longe do sentido romântico do termo quanto se pode imaginar. Naturalmente que, na era do telefone e do correio electrónico, a Inês não prescreve imposições de disciplina amorosa. Educação Sentimental no sentido em que os comportamentos que descreve através das personagens confluem para demonstrar que pode haver resistências, fidelidades e actos passionais salvadores, e que o sentimento pode ser vivido como uma competência ao serviço da harmonia, o que não é equivalente ao significado simples de felicidade. Ou por outras palavras, Nas Tuas Mãos, literariamente, propõe o caminho inverso ao trilhado por Truismes. Ao contrário de Marie Darrieussecq, Inês propõe que se ignore quaisquer Estranhos Perfumes, e que todas as personagens, mesmo no mundo em ruínas, mantenham um odor a gente.

Melhor dizendo, Nas Tuas Mãos é constituído pela autobiografia de três mulheres oriundas das décadas de quarenta, sessenta e oitenta, e com elas comprometidas. Jenny, Camila e Natália são, respectivamente, avó, filha/mãe e neta, cada uma com a sua história incomum, mas unidas tanto nas vidas quanto nos discursos pela exaltação do poder do sentimento e o triunfo deste sobre o apelo do corpo. Provam-no as próprias epígrafes que introduzem cada uma das partes desta instrução dos amantes. O Diário de Jenny é encimado pelos versos de John Asbery - "Who goes to bed with what/ Is unimportant. Feelings are important"(...). O Álbum de Camila repousa sobre o corpo denso de Marguerite Yourcenar - "On ne bâtit un bonheur que sur un fondement de désespoir. Je crois que je vais pouvoir me mettre à construire." E Vergílio Ferreira introduz As Cartas de Natália - "Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo." Aliás, a citação de Vergílio chegaria, por ser a mais condensada e estar de acordo com o temperamento das personagens. A emoção e o sentimento conduzem-nas, e embora não lutem com uma espada a favor da verdade, da fidelidade ou do bem, não são outros os valores que ilustram. No conjunto, as três partes deste livro acabam por demonstrar como o comportamento humano transcende o domínio da terra e do tempo, uma espécie de fundo neo-platónico de súbito retomado. Principalmente se pensarmos que o amor rubro de Jenny, servido por um casamento branco, tem um desfecho diferido no final feliz, protagonizado por Natália, a sua neta mulata, na verdade sua neta em espírito. Mas este aspecto, base da frescura que cativará muitos leitores deste livro, também é, como a própria Inês bem o sabe, a sua telha de vidro, ainda que deliberadamente o assuma, como muitas vezes tem dito.

Aliás, em matéria de coerência, nada há a dizer. A história destas três mulheres a quem Inês dispensa qualquer paisagem que não seja a da interior e a da fala, desenrola-se, no plano textual, a nível do saber espirituoso, ou sobre o espírito, e por isso a parte poética de Nas Tuas Mãos entretece-se prioritariamente de asserções, sentenças e aforismos. A confiança neste processo, tão próprio de Agustina Bessa-Luís, encontra, para surpresa de muitos, nos livros de Inês Pedrosa, um lugar estruturante, e como a autora de Conversações com Dimitri e Outras Histórias escreve em alguma das páginas desse livro, o aforismo, cristalização duma ideia superior sobre uma trivialidade da vida, pode constituir o lado mais iluminante da obra dum escritor. Inês parece assumir a convicção. Neste caso, importa dizer que em Nas Tuas Mãos as sentenças mais interessantes estão na boca das personagens invocadas pelas personagens que a si mesmas se biografam. Diz uma delas - "Recuso-me ao miserabilismo de ter opiniões, prefiro viver de emoção e pensamento." E uma outra, a propósito do facto de Portugal se encontrar fora dos percursos da História - "É uma vantagem e uma infelicidade. Uma vantagem porque, por onde a História passa, deixa um rasto de sangue. Uma desvantagem porque, por onde a História passa, deixa um rsato de criatividade." Ao que se segue uma outra e uma outra, encadeando um saber articulado muito próprio, um discurso anti-woolfiano dominado pela razão. O tom maior deste livro de Inês Pedrosa é daqui, precisamente, que se desprende.

Nas Tuas Mãos é um romance sobre todos, mas prioritariamente sobre mulheres. A este respeito dá que pensar o livro de Inês Pedrosa. As feministas dos anos sessenta devem trocar olhares curiosos com Inês, feminista dos anos noventa. Onde estão as fórmulas do vigor emancipativo que atravessaram o discurso de há trinta anos, ou mesmo de há vinte anos atrás? É escusado procurar, non sunt hic. Nos dois livros de Inês - e mesmo nas outras suas prosas - a imprecação contra os domínios e dominações mudou de tom porque ela refere uma outra realidade. As personagens, e os discursos que os sustentam, lutam e desavêm-se pelos sentimentos desencontrados, as mortes súbitas, as traições da amizade não anunciadas, as decepções globais do tempo histórico. Combatentes e espectadoras do ser e do sentir, para quem a questão do antagonismo homem/mulher parece ter desaparecido do horizonte. Neste caso, aliás, as três protagonistas - uma aristocrata, uma fotógrafa e uma arquitecta - vivem e movem-se com total independência e autonomia, e liberalidade absoluta em relação aos sexos. Sobre elas parece que não impende mais o velho conselho de Nietzsche - Se fores ver a mulher leva o chicote - ameaça que nenhuma das filosofias de emancipação difundidas ao longo do século conseguiu erradicar. Os misógenos Schopenhauer, Kierkegaard e Nietzsche constituíram um nó górdio de incompreensão contra a capacidade das mulheres que só a prática democrática no terreno tem conseguido minorar, mas eles aí estão, na boca de todos. O que alguns leitores vão perguntar - em especial algumas leitoras - é se o mundo das mulheres de hoje é este que Inês retrata, quando no próprio domínio da apreciação da literatura, um autor tão popular como é George Steiner, por exemplo, ainda se refere ao talento feminino com uma vergasta em punho.

Ao que Inês Pedrosa, e com ela uma geração, poderá argumentar que a ficção não tem que tratar de denominadores comuns de nenhuma espécie. Ou ainda, que a cada um compete escrever a partir do lugar onde se situa sem outra obrigação que não seja a de recriar a sua própria realidade e a sua própria fantasia. E, principalmente, que o particular num momento pode ser premonitório de alguma coisa mais geral, no momento seguinte. A questão permanecerá em aberto. Melhor dizendo, oxalá permaneça e Nas Tuas Mãos suscite leitura e levante questões. No meu caso, gostei de ler este livro porque ele me atingiu - não só me questionou como me levou para o campo de certo saber e muitas vezes para o sítio da beleza. Já agora, acrescente-se, beleza oposta à da metamorfose fulgurante inventada por Darrieussecq e que ilustra o outro lado da espécie, o outro lado do bichoque nos espreita por toda a parte. Mas o livro da Inês escolhe do mundo o concerto e de entre as personagens, que concebe como pessoas, prefere as boas, apesar da maldade, às que são maldosamente boas, para usar palavras próximas do seu texto. Isto é, neste livro, amor e sexo batem as asas. Longe ficam os animais. É a escolha de Inês, o mundo esperançoso de Inês. Ela sabe que contra si tem muito mais do que metade do mundo. Mas também sabe, naturalmente, que a outra parte lhe pertence. Entretanto, seus leitores e amigos, virada a última página, aqui ficamos à espera da terceira instrução dos amantes.

Lídia Jorge, texto de apresentação de Nas Tuas Mãos. Llivraria Barata, Julho 1997. Publicado no Jornal de Letras a 13/08/1997.

 

 

 
 
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