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Nas Tuas Mãos | Crítica | Urbano Tavares Rodrigues | Revista Colóquio/Letras

 

Dentro de Ti Ver O MarNas Tuas Mãos - Romance. Edição alemã: In Deinen Händen. Edição espanhola: En Tus Manos
de Inês Pedrosa
Edição portuguesa: 227 páginas, Dom Quixote
Edição brasileira: 208 páginas, Alfaguara
Edição alemã: 318 páginas, Luchterhand
Edição espanhola: Destino

 

Nas Tuas Mãos
Lisboa, Publ. Dom Quixote/1997


Romance muito criativo, assinalável pela subtileza e riqueza de processos narrativos e pela plasticidade da linguagem. Inês Pedrosa, que já nos dera, num primeiro romance (A Instrução dos Amantes), provas do seu talento para representar os problemas da juventude, vai aqui muito mais longe. Consegue efectivamente modelar personagens bem diferenciadas e, usando ora a escrita diarística, ora os comentários a um álbum de fotografias, ora o tom epistolar (cartas de profunda análise da vida e do amor), dá-nos três retratos de mulheres muito diferentes, marcadas pela cultura e pelos acontecimentos d três etapas do século em Portugal: anos 40, 60/70 e 90.
Há por vezes o receio de elogiar excessivamente um escritor jovem e mais ainda quando ele veio do mundo do jornalismo. Neste caso, tal prevenção não se justifica. O livro de Inês Pedrosa é construído com muita segurança e nele se cruzam ideias e vivências (de Portugal e de Moçambique, do tempo do fascismo e do da descolonização) com tal poder de escrita que o texto ora comove ora faz sorrir, ora nos leva a participar e aderir ou a discordar, numa escrita delicada, mas de impressionante eficácia e beleza.
A descrição da relação de Jenny com António e Pedro, na primeira parte, ao som do Jazz do após-guerra, é verdadeiramente original, pelo ritmo balético, a esfuziante delicadeza, a generosidade do olhar feminino na aceitação total da homossexualidade do marido. Um triângulo que se equilibra quase harmoniosamente, como num sonho, sobre o rio turvo da vida: Inês Pedrosa tem o condão de tocar com uma varinha mágica situações que poderiam ser chagas e se tornam flores.
Os retratos do álbum são o mundo à volta de Camila: as amigas e os seus casos e descasos, o que de mais enigmático ou mais revelador uma fotografia encerra. Episódios, que podem ser instantes ou a eternidade — Edmundo, o amor da adolescência; Xavier, o indepedentista negro que lhe deixará um filho, a memoria da FRELIMO; e as imagens do 25 de Abril, tão rápidas (que pena!). Um maravilhoso humor em todas as páginas, adoçando as arestas da existência, as rugas cruéis que o tempo imprime nas almas. Cada figura é um drama, uma caricatura breve, a porta para um sonho. Lá estão as cenas da loucura tardia de Jenny, os ternos duelos entre mãe e filha, as silhuetas da gloriosa Glória, de Daniela ao longe. O "auto-retrato" de Camila aos 52 anos. em plenitude, de sol e gelo, à beira da morte.
As cartas de Natália, a linda mestiça, para Jenny, sua avó, redobram de humor, de ironia e sobem ainda em fantasia para dizer verdades marginais, ligeiras provocações, os equívocos do casamento, o vazio do convívio. Natália perde Rui, parece que não vai recuperar Álvaro, queima as saudades de Jenny ao calor de uma lareira. O amor possível entra nela, por fim.
A escrita de Inês Pedrosa, suave, maliciosa, inteligente, não só se espraia por vários espaços individuais e sociais; brinca consigo mesma. daí o prazer de ler este livro, feito de carne e de espuma, mesmo quando é pensamento.

 

Urbano Tavares Rodrigues, Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 147/148, Jan. 1998, p. 353.

 

 

 
 
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