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Desamparo | Crítica | Nuno Garcia Lopes| Apresentação de Desamparo na Feira do Livro de Tomar

 

Dentro de Ti Ver O MarDesamparo – Romance
de Inês Pedrosa
Edição portuguesa: 320 páginas, Dom Quixote.
Edição brasileira: 296, Leya
Edição croata: 208, OceanMore

 

 

Texto de apresentação do romance Desamparo pelo poeta Nuno Garcia Lopes, por ocasião do lançamento do romance na Feira do Livro de Tomar (2015).

Fez aqui há um mês seis anos que a Feira do Livro de Tomar acolheu, tal como hoje, uma insigne figura das letras portuguesas que foi menina nesta cidade.
A feira evoluiu. Saiu dessa tenda acanhada onde o calor nos abrasava em Abril, e onde decorrera nesse ano a primeira edição deste ciclo; mudou-se para um pavilhão com melhores condições mas a que faltava a alma, e está hoje, felizmente, plantada neste edifício que talvez se possa chamara uma ilha, no meio do rio que terá, tantas vezes, sido uma fonte de inspiração para a Inês nas suas deambulações infantis e juvenis.
A Feira do Livro de Tomar, por culpa da Câmara Municipal, que a tem entendido como uma actividade prioritária, e da Livraria Nova, que tem sabido resistir à secura do clima económico e cultural; esta Feira, dizia, tem evoluído e é hoje, na sua dimensão, um evento respeitado e, fundamentalmente, em que o livro é respeitado.
E é assim que acolhemos hoje, mais uma vez, a Inês Pedrosa, ela que foi a primeira escritora a apresentar um livro na Feira, em 2009, com o lançamento em Tomar do romance Os íntimos.
Seis anos depois, e se descontarmos a presença continuada de alguns autores locais, a Inês é a primeira escritora de renome a regressar a este certame para falar dos seus livros.
Seja, pois, bem-vinda de regresso a Tomar, Inês Pedrosa.
Um regresso que acontece pela mão do Desamparo. Não que ela tenha sido mal recebida (pelo menos assim esperamos todos nesta sala) mas porque é este o nome do seu romance mais recente, editado já este ano.
Para mim, os livros são muito mais do que as palavras que contêm e é por isso que nunca serão substituídos enquanto objectos, por muita parafernália electrónica que se invente.
E por isso não deixei de atentar desde logo na insólita fotografia da capa, constituída por uma paisagem feia com todos os tiques do que de pior se foi construindo nas nossas aldeias nas décadas mais recentes. E não deixei também de reparar num pormenor com importância talvez superior: a ilustração em jeito de mapa que supostamente pretende ajudar o leitor a situar-se, existente no início do livro.
É que há três formas de um autor situar o enredo no espaço. Ou se limita a indicações genéricas que o permitem colocar em qualquer lado e em lado nenhum; ou é muito claro e dispõe a trama a decorrer em sítios, ruas e edifícios que todos conseguimos reconhecer; ou então, para não perder alguma verosimilhança, mas evitar aquele lamiré de que "todas as semelhanças são mera coincidência", inventa espaços e topónimos onde situa a acção.
Podia ser este o caso, mas então porque é que a autora foi inventar um sítio chamado Lagar, atracção turística com um castelo quase junto ao mar, um pouco abaixo das Termas do Rei e acima de Bombarda (uma das poucas palavras começadas por bomba que há em Português, tal como Bombarral…), tudo isto (em termos de imagem) acompanhado por duas suculentas peras-rocha?
Quando os livros são bem feitos não acredito em acasos.
Já os enredos, são outra história. Acasos, coincidências, acontecimentos premeditados e outros, talvez, predestinados, surgem em catadupa (se a narrativa é boa) para nos sugarem a atenção para dentro do livro até que ele se torne numa obsessão.
É. Os bons livros são assim. E é o caso deste , que vai situar ali algures no Oeste (a autora quer que eu acredite nisso, e eu acredito!) o acaso da queda de Jacinta Sousa, a que tratavam no Brasil pela "portuguesa" e em Portugal pela "brasileira", senhora de idade avançada que, na solidão das vastas horas em que agoniza ao sol sem socorro, analisa a sua vida em flashback, os acasos, as coincidências, os acontecimentos todos que a trouxeram até ali, enquanto espera a vinda do filho que prometeu vir…
Fiquem descansados, os hipotéticos leitores e a prezada autora, que não adiantarei mais pormenores. E também a Olga, a Lurdes e a Marta, que aqui representam a livraria – não vos quero estragar o negócio.
Sob o calor da tarde, possivelmente uma tarde como esta, lá deixarei a pobre Jacinta a aguardar, agonizante, se o socorro chega ou não a tempo de a salvar.
Também este é um dos melhores artifícios literários: alimentar o suspense, deixá-lo crescer surdamente até que quase o conseguimos sentir a insinuar-se entre nós.
Sim, de tudo isto se compõe o romance Desamparo, em que a narração é feita, em grande parte, com sotaque transatlântico, tão estranho na paisagem como estas casas com ar de terem sido projectadas por um candidato a primeiro-ministro, que nos traz a capa. Um romance em que se compõem retalhos da vida, tão díspares como o pavimento de restos de mármore deste terraço.
Pois, nunca é por acaso que os pormenores aparecem nos bons livros.
Tão pouco por acaso como o facto de os escritores regressarem aos locais onde gostamos deles.
Calo-me, pois, e entrego à Inês, sob o vosso olhar que repousa nas águas, o comando deste barco.

Nuno Garcia Lopes
Lagares d'El Rei, Tomar, 31 de Maio de 2015

 

 

 
 
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